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DE NOXAS, SUSCETIBILIDADES E IDIOSSINCRASIAS

Silvia I. Waisse de Priven

 

Os conceitos acerca de noxa, suscetibilidade, idiossincrasia são de fato muito confusos.

Os diversos autores fornecem definições e conceitos diferentes, há mistura de termos: sensibilidade, suscetibilidade, predisposição, disposição.

Se perguntar-se a diferentes homeopatas, obter-se-á o mesmo número de respostas diferentes.

Um segundo ponto de controvérsia é a importância relativa de cada um desses elementos no processo do adoecer.

Tem-se que assumir como fato, que não há uma só Homeopatia, mas várias.

Por exemplo, para Hahnemann, nada disto apresentava dificuldades especiais, para
ele estava claro que, as noxas naturais só podem fazer adoecer quando o indivíduo está "vulnerável", enquanto que as noxas artificiais (medicamentos), possuem o poder
incondicional de afetar o estado de saúde humano.

Aqui há vários elementos a se considerar. Primeiro: foi utilizada a palavra "vulnerável",
pois os termos empregados por Hahnemann, nesse contexto, são disponirt e aufgelegt (Organon, 6a ed., parágrafo 31o). Nas edições habituais, são traduzidos , respectivamente,
como "disposto e predisposto" ou "predisposto e suscetível". De fato, ambos os termos só podem ser traduzidos como "disposto". Não há maneira de se determinar o que Hahnemann pensou, quando escolheu esses dois termos, exceto através de uma análise filológica, o que, talvez só tenha interesse histórico. Em outro lugar, utiliza o termo geneigt , traduzível como "disposto, inclinado" (Ibid., parágrafo 33o). Daí a escolha do termo "vulnerável".

Em segundo lugar: as noxas naturais só provocam doenças quando estamos "vulneráveis", no entanto, os medicamentos agem sempre. Infere-se que a única preocupação do médico é encontrar o medicamento mais semelhante quanto possível, com isso resolve-se o quadro.
Não há necessidade alguma de aprofundar na questão da "vulnerabilidade".

Ao mesmo tempo, Hahnemann adverte que as causas ocasionais devem ser afastadas e discrimina como doenças "não verdadeiras", às produzidas pela influência constante de fatores nocivos evitáveis.

Esses conceitos aparecem no Organon, mesmo na 6a edição, mas são mais antigos: já tinham sido formulados, por exemplo, no Espírito da Doutrina (1833). Essa conceituazação autoriza um modo de abordagem homeopática "hahnemanniana".

Ao elaborar a doutrina das doenças crônicas, Hahnemann incluiu na cogitação os miasmas crônicos, sendo a psora a causa da imensa maioria das moléstias crônicas, excetuando as produzidas pela sicose, sífilis e tratamentos alopáticos. Novamente, não se preocupa com a "vulnerabilidade": todos somos extremamente vulneráveis à psora, a criança infecta-se pelo contato com sua babá, etc. Mais uma vez, só é necessário encontrar o antipsórico mais apropriado que o problema fica resolvido. É evidente que isto gerou toda uma outra abordagem clínica, controversa ainda em vida de Hahnemann.

Podemos concluir que a questão de "vulnerabilidade" não foi um problema especial para Hahnemann.

Entra em cena Kent, e com ele o problema da "suscetibilidade". Por que? Por sua tese de que "quando a suscetibilidade está satisfeita, há uma cessação de causa, e quando a causa deixa de atuar... cessam os resultados" (Lição 14a). Portanto, mais elevado do que "tratar doenças" seria "tratar a vulnerabilidade à doença". Essa é a base da abordagem clínica das escolas kentianas, desde Kent até hoje.

No outro pólo do espectro, desenvolveram-se concepções que enfatizam o papel da noxa, à expensas da importância relativa da "vulnerabilidade". Essa é a origem, por exemplo, dos nosódios (Morbilinum para sarampo, etc.).

Indefectivelmente, cada homeopata deverá fazer, mais cedo ou mais tarde, sua escolha pessoal. Porém, ainda precisamos perguntar-nos: qual é a importância de tudo isso? Como se aplica na prática? Sem entrar em questões dogmáticas e filosóficas e sem pretender esgotar o assunto, tentarei apresentar uma síntese de conceitos úteis para a prática.

 

NOXAS: Forças hostis à vida, em parte físicas, em parte psíquicas, capazes de modificar a saúde humana, fazendo-nos adoecer. (Organon, 6a ed., parágrafo 31o).

 

FACULDADE DE SER AFETADO:

  1. Por coisas que afetam a todos os indivíduos de uma espécie: SENSIBILIDADE. Exemplo: cólera afeta humanos mas não afeta animais.
  2. Por coisas que afetam só os indivíduos de uma raça: SENSIBILIDADE DA RAÇA. Exemplo: hiperuricemia da raça dálmata de cães.
  3. Por coisas que afetam, particularmente, um indivíduo só: SENSIBILIDADE INDIVIDUAL ou SUSCETIBILIDADE.

     
  • COMO SABEMOS SE O INDIVÍDUO É SUSCETÍVEL?

Não há algoritmos nem exames complementares.

Só sabemos que o indivíduo está suscetível porque apresenta sinais de reação a um estímulo (sintomas).
 

  • DE QUE DEPENDEM AS MANIFESTAÇÕES DA SUSCETIBILIDADE?

Da natureza própria de cada indivíduo: IDIOSSINCRASIA.
 

  • POR QUE CADA PESSOA É AFETADA POR ESTÍMULOS DIFERENTES (é suscetível a coisas diferentes e singulares)?

Por causa de sua natureza individual: IDIOSSINCRASIA.

 

E com isso chegamos ao núcleo da Homeopatia: a INDIVIDUALIZAÇÃO (Ibid., parágrafos 82o e 183o), tanto do enfermo, que depende da IDIOSSINCRASIA, quanto do medicamento, só cognoscível através de sua experimentação em pessoas sadias.

Parágrafo 82o:

"... Permanece sempre para o médico homeopata o dever... de uma interpretação cuidadosa dos sintomas particulares,... pois é impossível... realizar uma verdadeira cura sem uma estrita abordagem particular (individualização) de cada caso de doença..."

 

A IDIOSSINCRASIA NÃO É INVENÇÃO DA HOMEOPATIA.
 

  1. Abordagem clínico-farmacológica.

    "... Os efeitos adversos das drogas estão tornando-se cada vez mais comuns na medida que mais e mais medicamentos são aprovados a cada ano... define-se como ‘um problema fundamental da questão saúde nos Estados Unidos’... Estima-se que há entre 440000 e 98000 mortes/ano nos pacientes hospitalizados nos EEUU por causa de erros médicos..., grande parte dos quais devem-se a reações adversas às drogas... 25% de todas as reações adversas às drogas podem ser atribuídas a hipersensibilidade à droga, pseudolaergia ou idiossincrasia/intolerância..."

    "... os médicos devem estar alertas para as reações idiossincrásicas. O parâmetro prático define idiossincrasia como um ‘efeito inesperado e impredezível, não relacionado à ação farmacológica pretendida de uma droga. É não-imunológico mas reproduzível através da readministração da droga’... tendo o potencial para produzir reações letais..."

     

  2. Abordagem histórica.

    Nossa ciência moderna deriva da tentativa para se encontrar um conceito unificador: na Medicina, achou-se que esse princípio poderia ser físico, em consonância com a atitude científica do século XVII.

    Thomas Sydenham (1624-1689), condenou esse Racionalismo como "falsas doutrinas, meras hipóteses derivadas da especulação", que induziram a abandonar a observação e a limitar a variedade de enfermidades possíveis. Segundo Sydenham, o "Hipócrates inglês" só poderia conhecer-se o corpo humano através da observação, na saúde e na enfermidade, traçando a história das enfermidades e dos tratamentos, como base da ciência médica.

    Paracelso e Van Helmont tinham introduzido a noção do remédio específico; Sydenham introduziu o conceito de enfermidade específica. E DE GENIO EPIDEMICO Embora atribuía as doenças a uma causa humoral que não podia explicar, considerava desnecessário o conhecimento das causas últimas das doenças: só era necessário se conhecer a causa desencadeante (imediata) e os sinais visíveis que distinguem as diferentes doenças entre si.

    O conhecimento dos sintomas permitiria definir a "forma" (tipo) de cada doença, ou seja, a "forma" da doença se manifestava através dos sintomas e só podia ser reconhecida através deles. Mas aqui lhe apareceu um problema: os dados observáveis são virtualmente infinitos. O Galenismo achava que essa infinidade de variações era caótica; para Sydenham, o caos era, apenas, aparente: deixadas a seu curso espontâneo, as doenças se apresentariam num conjunto finito de categorias. De maneira que, segundo Sydenham, a natureza age de maneira regular e metódica: para a mesma doença, em diferentes pessoas, os sintomas são os mesmos, em sua maioria. Portanto, o necessário era escolher o critério para escolher sintomas. Para isso, utiliza a teoria clássica dos propria e communia:

  1. Sintomas comuns a muitas pessoas com queixas parecidas: communia (do grego, ta koina).
     
  2. Sintomas peculiares ao paciente individual, que o distinguem de todos os outros doentes com queixas parecidas: propria (do grego, ta idia).

 

O Racionalismo acentuava os communia; Sydenham enfatizava os propria, porém distinguindo entre:

  1. Os propria da "forma" da enfermidade (hoje diríamos, sintomas patognomônicos da doença): sintomas peculiares e constantes.
     
  2. Os propria do indivíduo particular: sintomas acidentais e adventícios.
     

    Obviamente,  para Sydenham os sintomas mais importantes eram os peculiares e constantes, desprezando os acidentais e adventícios, na medida que seu interesse era elaborar uma classificação das doenças, segundo o modelo da Botânica.

    Esse projeto de classificação de doenças também era o interesse da Escola de Montpellier (Sauvages, Bordeu, Barthez). Em especial, Barthez pretendia definir todos os padrões possíveis de reação do princípio vital às influências mórbidas. Partilhando do indutivismo de Francis Bacon, considerava que as causas são incognoscíveis e que só a observação pode fornecer os padrões e leis. O problema para o método indutivo era como ordenar e hierarquizar a infinidade de dados observados. Os médicos de Montpellier não conseguiram fornecer esse critério.

    A Medicina estava num círculo vicioso: a doença se define por seus sintomas significativos, mas os sintomas são significativos de acordo com a doença na qual aparecem. Cansados dessa impasse, Cullen e Brown formularam sistemas extremamente reducionistas. Para Cullen, a doença era fisiologia alterada (e a terapêutica), o restabelecimento da fisiologia. Essa fisiologia girava em torno de um princípio vital, ao que chamou de energia nervosa. Os sintomas deviam-se a uma de quatro causas possíveis:

  1. Enfraquecimento da energia nervosa, a maioria das doenças.
  2. Bloqueio da energia nervosa.
  3. Doenças sem alteração da energia nervosa: caquexias (inexplicáveis).
  4. Alterações locais da energia nervosa.

    Nesse contexto, só tinham valor os sintomas "comuns e inseparáveis", ou seja, aqueles que definem um dos quatro tipos de doença.

    O sistema de Brown foi ainda muito mais reducionista: todo mundo nasce com uma quantidade de "excitabilidade", cujo esgotamento implica na morte. As doenças devem-se ao aumento ou à diminuição da excitabilidade. Com isso, ignorava a maioria dos sintomas, atendendo só àqueles que definiam a classe de doença.

    Quem conseguiu resolver o problema dos propria e communia foi Hahnemann. A chave da individualidade de cada doente não está nos sintomas que tem em comum com os demais, mas naqueles que o distinguem dos outros. Não é o fato de "ter um nariz" o que distingue uma pessoa, mas a forma particular de seu nariz individual. O mesmo vale nas doenças: os aspectos peculiares e exclusivos que distinguem um doente de outro, são os mais valiosos para o médico. Hahnemann acentua os própria, e ainda, fornece um método de implementação terapêutica: os sintomas comuns do medicamento aparecem quando se usam doses grandes, os efeitos próprios, quando se usam dinamizados. São esses últimos os que devem "bater" com os sintomas próprios do doente. A eficácia da semelhança depende da correspondência dos propria e não da correspondência dos communia.

 

 

O que a homeopatia conseguiu foi operacionalizar as idiossincrasias, tornando sua referência acidental (alopatia) em referência chave, base do diagnóstico e da terapêutica.

 

Para refletir:

"... A aplicação do método científico à terapêutica experimental, exemplifica-se num ensaio clínico bem pensado e realizado... conclusões:

  1. O resultado de um ensaio clínico válido de uma droga só permite formular uma hipótese a respeito do que essa droga poderá fazer num paciente determinado, sem termos a certeza de que o que aconteceu em outros doentes vai se repetir nesse paciente. Na verdade, o médico utiliza os resultados de um ensaio clínico para realizar um experimento com seus próprios pacientes.
  2. Se o efeito previsto de uma droga não acontecer num paciente, não significa que não possa acontecer nesse paciente ou em outros. Muitos fatores do paciente individual podem contribuir à falta de eficácia de uma droga... Da mesma maneira, um efeito desagradável ou tóxico previsto, que não se observa num paciente determinado, pode observar-se em outros...
  3. Um efeito de uma droga que não se produz num ensaio clínico pode aparecer na prática clínica... A metade ou mais dos efeitos, benéficos e tóxicos, de drogas, não reconhecidos nos primeiros ensaios formais, foram após comprovados na prática médica..."

 

    A fonte? Goodman & Gilman, As bases farmacológicas da terapêutica, capítulo 3.

 

ENSAIO BIBLIOGRÁFICO

  • Nos tratados e compêndios vários sobre Homeopatia, pode-se encontrar facilmente exemplos da confusão de termos. Para um estudo com melhor orientação, sugiro:

 

Maffey, W. E. Os fundamentos da medicina. 2 vols. São Paulo, Artes Médicas, 1978.

Rosenbaum, P. Miasmas: Saúde e Enfermidade na Prática Clínica Homeopática.

Um outro livro desse autor que é  recomendado é Homeopatia: medicina interativa, história lógica da arte de cuidar. Rio de Janeiro, Imago, 2000.

 

Observações:

  • Recomenda-se  ler os dois primeiros volumes de Divided Legacy de H. L. Coulter.
     
  • É fundamental a obra "O sintoma característico" de Flora Dabbah. Com uma orientação mais voltada para a clínica, vale a pena consultar o livro de Marcelo Candegabe e Hugo Carrara acerca do "Método da Homeopatia Pura".

 


 

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Criada em 1999. Revisado: novembro, 2014.

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